domingo, 17 de setembro de 2017

“O atual ensino de línguas”



Em muitas escolas Brasil a fora, sejam escolas públicas ou particulares, ainda é possível ver professores que ensinam usando o método tradicional com a famosa “decoreba” de verbos, exercícios gramaticais mecânicos sem qualquer aplicação à língua em si.
O mesmo acontece com a língua estrangeira que muitas vezes é ensinada assim e também apenas com as tradicionais traduções.
A língua, seja materna ou não, é dinâmica e tem de ser empregada em seu contexto sempre levando em conta as quatro habilidades inerentes a qualquer língua: ler, escrever, falar e ouvir. É preciso escrever muito para se aprender a escrever bem e o mesmo vale para a leitura e oralidade.
É preciso entender como uma língua funciona e a esse conhecimento linguístico acrescentar o contexto em que a mesma está inserida, entendendo também as normais culta e coloquial. Não adianta de muito ter grande conhecimento da norma culta de uma língua se não se sabe aplica-la a determinados contextos.
Se, por exemplo, sabemos como um carro funciona certamente iremos usá-lo com maior competência e o mesmo acontece em um sistema linguístico.
Essa ideia deve ser usada nas aulas de línguas sejam estrangeiras ou maternas, levando também em conta que não temos pequenas caixas onde depositamos o conhecimento; temos pessoas sejam adultos, jovens ou crianças que pensam, que sentem. Os adultos chegam muitas vezes chegam às aulas preocupados com suas famílias, cansados por um dia exaustivo de trabalho, por exemplo. Já os jovens e crianças chegam chateados por conta de algo que aconteceu em casa ou com algum conflito sentimental. Tudo isso também deve ser levado em conta quando se ensina uma língua.
José Carlos P. de Almeida Filho, professor na área de Linguística Aplicada na Unicamp, em um de seus livros fala sobre o “filtro afetivo” que é justamente o que o ser humano traz para sala de aula como ser humano, seus sentimentos, suas preocupações e que o professor deve saber lhe dar com isso.
Como seres humanos não somos iguais, alguns têm mais dificuldades para aprender linguagens do que outros, não podemos simplesmente aplicar um método engessado para todos os alunos em uma sala de aula. É preciso conhecer aluno por aluno, o que pensam, o que sentem, quais são suas dificuldades para que se possa trabalhar individualmente dentro de um contexto global.
O contexto individual de cada um faz parte da aula, por exemplo, não se pode trabalhar com uma música da qual os alunos não se identificam, é preciso conhecer os seus gostos e chegar a um consenso que agrade pelo menos a maioria.

Se o trabalho é com adultos os interesses deles serão alguns, se são jovens e crianças, os interesses serão outros e o mesmo vale para o contexto social de onde eles vêm e vivem.
O professore não é um transmissor de conhecimentos, e sim, um mediador dele porque todas pessoas possuem um conhecimento prévio que não deve ser ignorado e, principalmente, em sala de aula.
Por isso, é importante que o professor tenha conhecimento de tudo isso, que ele conheça o aluno como ser humano para que possa mediar o conhecimento com cada um, fazendo com que a aprendizagem se torne algo gostoso e não algo maçante.
O processo didático pedagógico vai muito além de uma transmissão de conteúdos como o que leigos imaginam, esse é um processo em constante mudança que exige uma determinada formação que é dada em bons cursos de Licenciatura e precisa de constante por parte desses profissionais.
Não é apenas formando mal os professores e depois tentar consertar a formação com alguns cursos de extensão ou pós-graduação ou apenas acreditar que instrutores farão o bom trabalho de bons professores que estudaram e se prepararam para o ofício. É como esperar que um biólogo, por exemplo, faça as vezes de um médico.
Em todas as áreas que se trabalha com o ser humano, não apenas na medicina ou áreas em geral da saúde, mas em todas de uma maneira global há a preocupação de uma boa formação e de experiência, pois, tudo isso é o mínimo. Contudo, na profissão de professor isso parece não ser levado muito à sério.
Já se pensou em se criar um tipo de residência para os cursos de Pedagogia e Licenciaturas, algo que não foi a diante pelo simples fato de no Brasil a educação não ser tão levada a sério como em outros países.
Por exemplo, a Finlândia que possui um dos melhores sistemas de ensino do mundo, diferente do Brasil, não deixa seus jovens muito tempo na escola e não existe educação privada, apenas pública e de qualidade. E lá todos são bilíngues.

A carreira de professor é tão valorizada que chega a ser concorrida que as tradicionais medicina, direito e arquitetura.

Um professor finlandês ganha muito bem, contudo, precisa ter o grau mínimo de mestrado.
Isso nem sempre foi assim. Até meados do século passado ele era um país pobre que resolveu investir em educação.

O Brasil parece caminhar para o caminho oposto, as faculdades de licenciatura estão cada vez mais vazias, o professor é cada vez mais desvalorizado e não há uma preocupação com sua formação, o que faz com que encontremos leigos trabalhando na área.

Além de não haver uma preocupação com políticas públicas que integrem responsabilidades familiares com educação formal, o que faz com que escolas se tornem cada vez mais “depósitos” de crianças e adolescentes onde há “babás” com formação universitária para cuidar deles.

Obviamente que cada país e um país e não se pode comparar um povo a outro pelas formações históricas e sociais serem diferentes, porém, é preciso mudar e é possível se fazer essa mudança, desde que governo e povo caminhem juntos.

Assim, o povo e os políticos brasileiros têm muito a aprender com os finlandeses, pelo menos no modo como dão tal importância à educação. E é claro, a educação compreende o ensino de línguas. Talvez por isso, nossos jovens falem mal a língua materna ou não sabem usá-la em determinados contextos e não aprendem a Língua Inglesa na escola sendo que, como em uma escola de línguas, eles também têm aulas de inglês duas vezes por semana por duas horas.


Karin Földes – Pedagoga/Psicopedagoga, Licenciada/Mestre em Letras e autora do livro “Oralidade e redação: por que acontece? Como evitar?”

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